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19 de junho de 2011

Cuidado com o que dizer


Ser professor é dar um duro danado e quase nunca ter retribuição às noites acordado corrigindo provas, planejando aulas e estudando. Mas, às vezes, acontecem situações inusitadas, muitas vezes hilárias.

A aula era de Literatura. Entrei na sala e comecei a reclamar sobre o camarada que se apaixona e escreve poemas de amor.

— Poetas de ocasião versando sobre clichês românticos mais batidos do que vitamina na lanchonete da esquina. Com o coração se faz literatura ruim.

Alguns riem eufóricos, outros arregalam os olhos, alguns poucos se encolhem nas cadeiras com o olhar vazio.

— Pior, não contente ainda, o infeliz apaixonado traz os poemas encadernados, mostrar a sua péssima obra poética, sonhando ser o próximo Camões. Leio aqueles versos insossos, mal escritos, nada originais e, por incentivo apenas, teço um moderado elogio, sem deixar de lado o conselho para que leia bastante e escreva mais como exercício literário. Penso ter me livrado de tal moléstia, mas na semana seguinte, lá vem novamente o pseudo-poeta com mais versos inúteis. — forço uma expressão de desdém e continuo — Sim, estão muito bons — respondo com educação — mas continue lendo mais.

Faço uma pausa. Olhar perdido como se estivesse a ponto de me jogar pela janela.

— Não havendo nenhuma melhoria nos versos, nem mesmo um arremedo de originalidade, na terceira vez que recebo os poemas, olho de cara feia e ponho as poesias sobre a mesa sem interesse. O poeta fica triste, percebe que há algo errado, mas volta ao seu lugar, pensando que deve ser alguma coisa relacionada ao meu humor. Na semana seguinte não comento os textos, eles são tão ruins, melosos, ingênuos de mais para perder o precioso tempo em sua leitura. Não — brado para a turma. — Chega de lixo! Poesia não se faz com o coração. É com bons sentimentos que se escreve o lixo literário. A inspiração não faz o poeta, é preciso muito mais do que um sentimento comum como o amor para se fazer poesia. Portanto, parem de me mostrar péssimos textos inspirados por paixão. Na pensem que são poetas por estarem apaixonados. A poesia é muito mais do que uma dor de cotovelo. Parem! Vocês não são poetas! — digo exaltado, insuflando as veias.

A turma se entreolha. Não entendem o ódio do discurso.

Prossigo:

— Esta porcaria literária existiu no Romantismo, mas acabou, para nossa felicidade. Quem insiste nisso é um trouxa movido por sentimentalidades. Não é assim que se faz poesia. Para fazer versos é preciso o domínio da técnica textual, conhecer a língua com esmero, não fazer rimas comuns, buscar as palavras raras. Escrever é um trabalho árduo, cansativo. Não essa lamúria infeliz da alma apaixonada. Não se escreve com alma, se escreve com a inteligência.
Alguns alunos me fuzilavam com os olhos. Outros riam muito da minha exaltação.

— A literatura é arte, como tal deve ser feita com esse intuito. Valorizar a forma, cultuando sua perfeição exata — terminei o meu discurso e fui ao quadro, pondo-me de costas para a turma.
Enquanto escrevia “Parnasianismo” abaixo da data, ouvi um burburinho no fim da sala. Virei novamente para os alunos, dizendo, já sorrindo como de costume:

— Esse era o pensamento dos poetas parnasianos a respeito das artes poéticas, negando a produção romântica no século XIX.

Uma aluna deixava escorrer umas poucas, mas sentidas lágrimas.

— Professor — disse com a voz engasgada — o senhor pode devolver os meus poemas que deixei na sua mesa semana passada... — e rompeu num choro sentido.

Dizer depois que era somente uma brincadeira para exemplificar o discurso parnasiano não me livrou a cara. Ela até hoje me olha com raiva.

Alberto da Cruz

16 de junho de 2011

Ponto de Segurança... fail

Meu ponto de segurança e margem para desespero acabou ontem. Mas calma, amigos, não é nada grave — para os outros. Costumo mesmo fazer drama em tudo, afinal resquícios românticos ainda existem em mim. Leia-se bem: resquícios. Há muito não sou o poetaço romântico sentimentalóide de outros tempos, quando ainda pensava que as lágrimas vertidas no papel decoravam a página com minhas dores lacerantes e belas. Na verdade só manchavam a porcaria da folha e muitas vezes estragavam o trabalho poético. “Exagerado, eu sou mesmo um exagerado”, gritava Cazuza, grito eu.

Ontem à noite fiz a postagem de Eternos Amantes e me assustei ao correr os olhos no documento principal: as páginas escritas acabaram! Não tenho mais nada para postar semana que vem, não tenho nada pronto para postar semana que vem, nem mês que vem... Protelei meses para escrever o romance, acreditando que o que já estava pronto daria conta do recado até que eu desse cabo da história. Agora o cabo desceu com violência e minha cabeça e a história acabou comigo.

Volto a escrever, não por prazer, mas por obrigação, já que não tenho mais para onde correr. De certo, eu precisava mesmo queimar umas gordorinhas e acabar com esse sedentarismo que vem me cansando. Já estava na hora de começar o trabalho e de transformar o hiato em ditongo. Esta semana preciso entrar no clima de Eternos Amantes, preciso ouvir músicas que me remetam ao clima nostálgico de Cláudia, ao choro incontido e à dor de cotovelo de Luciana e, não menos importante, ao arrependimento de Jorge.

É sempre difícil regressar a um texto parado no tempo. Não é nada fácil voltar a uma vida esquecida e retomá-la de onde paramos, porque ninguém é o mesmo, todos mudamos, inclusive as personagens de um romance.

Alberto da Cruz