1 de junho de 2013

Mobilidade

Reclamamos do trânsito de Angra dos Reis todos os dias. E não é por menos, o número de automóveis cresceu, o número de vagas diminuiu, as vias não mais sustentam o contingente a que é submetida. E os resultados? Congestionamentos constantes, procuras intermináveis por um local para estacionar e, inevitavelmente, acidentes. O governo incentiva o povo a comprar carros, mas não se preocupa com as vias nacionais. Afirmo diariamente que Angra não suporta mais carros.

As soluções para o problema existem, mas sempre há um custo. Construir edifícios-estacionamentos, aumentar as vias, instalar semáforos em pontos cruciais da cidade, investir na qualidade do trânsito e principalmente em educação.

Existem outras possibilidades, como o uso do transporte público. Para tal, é preciso que a cidade ofereça um serviço de qualidade, que respeite horários, dê conforto e segurança aos usuários. Em Angra, caminhamos para trás e vemos o caos se instalar.

O problema não existe só no centro da cidade, espalha-se por todos os bairros. Mas é justamente nesses bairros, muitas vezes vistos como problemas sociais, que os exemplos aparecem.

No bairro mais populoso de Angra, a solução para a precariedade do transporte é o uso da bicicleta. Mais do que uma brincadeira infantil ou lazer, as bicicletas são encarregadas de levar o trabalhador ao seu local de trabalho, transportar as crianças para a escola, acompanhar as mulheres ao mercado e diversas outras atividades. Os carros e as bicicletas convivem. 

É claro que deveria haver um investimento em educação para o trânsito a fim de corrigir alguns erros cometidos por desconhecimento de normas e leis. Mas as coisas funcionam, as pessoas se locomovem e ainda há vagas para estacionar. 

Deveríamos deixar os carros em casa mais vezes e buscar alternativas melhores para a nossa vida.

Alberto da Cruz

2 de janeiro de 2013

Prometo que...


Começamos um novo ano. Mas qual a diferença entre o último dia do ano passado para o primeiro dia do novo ano? É apenas o início de um ciclo que terminará da mesma forma que todos os outros. É correto então esperar pelo primeiro dia de janeiro para que se mude a vida, enquanto os dias que antecedem a grande festa da virada sejam repletos de vícios e erros?

Para mudar não é preciso esperar que o número final do calendário seja outro. Para mudar não é necessário empurrar as falhas mais adiante como forma de aproveitar o que sabemos ser errado por mais tempo. E as promessas de fim de ano, em geral, não se cumprem justamente por isso, por esperar tempo demais e gozar de mais tempo os males que devemos abandonar. Mudemos já!

Todos os anos faço promessas, não sou diferente de ninguém. Quantas vezes já disse que pararia de fumar no “ano que vem”? Mas esse ano nunca veio, e continuava a comprar maços e isqueiros. Quantas foram as vezes em que disse começar a dieta e ter uma vida saudável a partir de janeiro, sem que conseguisse evitar as guloseimas e gorduras que se estendiam das ceias? É um costume ruim esse nosso, adiar as transformações, iludindo-nos anualmente.

Faremos diferente, nada de esperar. Se vamos mudar nossas vidas, que seja agora. Não faremos um ano melhor, faremos, sim, uma vida melhor de hoje em diante, só por hoje, em todos os hojes do nosso amanhã.

28 de dezembro de 2012

Do amor quando se apaga


Estou agora ouvindo Todo o Sentimento, de Chico Buarque, e me parece que a dor aumenta à medida que meu sentimento é sangue escorrendo pela ferida exposta e dolorida. O amor quando se torna dor é um insuportável lamentar sem fim, o amor quando não há o ser amado é uma queda brusca no abismo do eu. 

Meu amor foi embora, ou eu o perdi na luta vã do cotidiano ignorante. Foi para não voltar, batendo a porta, sem dizer adeus. Ficou a lembrança daqueles dias azuis, mas que agora são cinzas, enevoados pela ausência que seca a alma e transborda os olhos, cheios de imagens antes cristalinas. 

É incrível pensar que antes sentido havia, mas agora a vida é, no mínimo, vazia. O jarro de flores mortas anda seco, a divina estrela d’aurora não brilha mais, a pomba branca, que antes voava altiva, esfacelada, chora. Como pode arrebentar as ondas quando ontem o mar era calmo? Como pode naufragar o barco que seguia em segurança pelos mares tranquilos?

Enfim, tudo acabou, eu acabei. No fim, o corpo doente é puxado para baixo com força. Abre-se a cova rasa para me cobrir com a terra pesada. A chuva são minhas lágrimas com desespero vertidas.

15 de dezembro de 2012

Mudar a vida



A vida muda num piscar de olhos, sepultando os sonhos que moviam o mundo. Criamos esperanças de que a sorte finalmente nos acolheu, mas eles morrerem numa rapidez exorbitante. Num piscar de olhos tudo muda. E a mudança não é nada agradável ao coração que sofre. Uma brutal dor nos devaneia a consciência, faz estremecer o corpo, tremerem as pernas de tal maneira que a queda é tudo o que podemos esperar. Não há no mundo sofrimento maior para o amante do que ter arrancado de si o seu objeto amado. A ausência sôfrega nos leva ao precipício infernal. Se não queremos nos atirar na escuridão amarga, é ela quem nos puxa com a promessa de findar o que nos faz gritar de desespero e desilusão fatal.

     

Muda-se a vida, mas a alma não quer mudar. Ela permanece presa no espaço incansável da paixão, mesmo ferindo num ardor profano e arruinado, não queremos que a chama se apague, forçando-nos a esquecer os momentos de um passado errado. Aceitar a mudança nunca é fácil quando não se quer mudar; quando se acredita piamente que ainda há chances, mesmo que remotas, de salvar o que não tem salvação. Encarar a realidade dos fatos é tarefa difícil para quem não consegue se libertar das amarras de um sonho intenso e devastador.

As lágrimas se esboçam quando olhamos a cama vazia. Rolam quando vamos deitar e não há a quem dizer boas noites. Despencam ao acordar e não haver para quem dizer bons dias. O peito abandonado se comprime, arfa num movimento tresloucado que nos corta o ar. Vazio o quarto, vazia a vida. Mudar é preciso, mas como, se não há razões para enfrentar a luta bárbara pela sobrevivência? Não adianta dizerem que é preciso. Precisamos é da volta de quem nos virou as costas, atravessou a porta e partiu de nossas vidas, impregnando-as de um negrume assustador.
     
Mas não há ilusão por mais que queiramos que ela exista. Quem partiu deixou-nos no acalento mórbido da solidão; quem se foi nos condeno ao martírio sem fim da loucura. 

Mudar! Mas o que há para mudar, quando nem mesmo podemos ver além das nuvens carregadas de lágrimas e trovões que gritam à nossa dor?


Alberto da Cruz

21 de setembro de 2012

Mormaço


Devagar, os olhos no espelho fitavam a imagem da tristeza, um abismo de sentimentos e de sonhos perdidos na memória. Observa-se em silêncio, procurando a sombra da alegria que um dia lhe desenhou o rosto com multicores. Só há o cinza no olhar vazio, absorvido por uma tristeza real, sem disfarce, pura em seu íntimo sôfrego. Não é mais o rosto que conhecia, e ainda pensava ter. É um estranho naquele corpo, um outro que lhe tomou o lugar. E ele o aceita, não luta para voltar a ser quem foi, a sombra o tomou, instalou-se. E ele pensou: tudo bem.

Havia graça na vida. Havia; hoje, não mais. As mãos lavam o rosto, mas não trazem quem se foi. A água passa pelas suas marcas, escorrem nas rugas e caem negras na pia, mas o rosto continua sujo, não por fora, mas internamente em sua consciência pesada. Por que se deixou morrer; pergunta-se indiferente. O espelho não responde.

O calor o enlouquece. A camisa manchada de suor lhe encharca o peito e as costas. Ouve, ao longe, o girar do velho ventilador ineficaz e enche as mãos de água; passa-as no pescoço, depois nos olhos marejados. O mormaço o deprime, força o pensamento para o passado, empurrando-o ao desespero do coração partido. Não há mais nada.



Alberto da Cruz

14 de setembro de 2012

Mais uma tentativa


Voltar a escrever depois de uma longa ausência não é algo fácil. O reencontro com as teclas é tortuoso nos toques decadentes da mão nervosa. Preocupo-me com superficialidades e me perco no compasso das horas em que permaneço sentado à máquina sem ter o que dizer, mas com uma imensa vontade de dizer. Devastar pensamentos, criar, atividades comuns, rotineiras de um cotidiano vazio são agora uma batalha terrível contra o vírus mortal da preguiça, ao mesmo tempo misturada com uma absurda vontade de fazer qualquer coisa para evitar o tempo entregue as artimanhas e teias frágeis da composição textual.
Disse faz algum tempo:
— O recesso acabou, é hora de voltar a trabalhar.
— Já era sem tempo — respondeu-me a confidente, e amante.
— Hoje começo — afirmei convicto.
E corri para o computador desesperado pela facilidade com que as ideias brotavam em minha cabeça. Pensei que escreveria tenazmente, atravessando a noite com os estalos do teclado, mas, contrariando as minhas expectativas, o cursor, na hora derradeira, piscava ininterruptamente sem que nenhuma linha fosse traçada. As frases se perdiam em algum ponto da tradução das ideias para o concreto.
Seria abstrato então. Nem mesmo assim fui longe. Uma sucessão de fragmentos e escritos ruins que eram apagados tão-logo foram escritos. Nada. Um mergulho na escuridão da alma incompetente.
No dia seguinte a pergunta voraz:
— Posso ler o que você escreveu ontem?
Eu sorrio aflito, enrubescendo a face e forçando um sorriso. Vou à impressora e pego uma folha em branco. Dou-lhe a folha. Digo:
— É isso, mais nada. Não consigo mais escrever. Acabou-se. O recesso virou aposentadoria por invalidez. Fim da história.
Palavras de incentivo são ditas. Lembranças do passado artístico. Tudo em vão. Não há mais em sombra do criador original ou plagiador.
Agora volto. E lá se vão os meses.
Recomeçar. Saber que preciso desenferrujar as engrenagens, exercitar em textos ruins como este para poder desinibir as palavras envergonhadas. Vamos lá.


Alberto da Cruz

8 de setembro de 2012

Deixe eu segurar a sua mão

Tenho necessidade de ir além dos meus limites, transpor as minhas barreiras e chegar ao fim da meta. Não consigo mais ficar estático, à espera de uma guinada para lugar nenhum. O desafio é constante, instigante luta pela conquista pessoal. Não posso aceitar a derrota antes de começar a batalha. Não me acostumei a cair e permanecer estirado no chão; não me acostumei a encarar a montanha e voltar os passos, de cabeça baixa; não me acostumei a desistir dos objetivos e recostar a cabeça no travesseiro, como se fosse normal. Prefiro levantar-me do chão, sacudir a poeira e continuar.
Frequentemente me perguntam o porquê dos meus atos; o motivo da minha luta. A resposta aparece todas as manhãs, quando o dia surge, levando a escuridão; a vida não para. Uma conquista pessoal tem mais valor do que a medalha, do que o pódio. A minha vitória é minha, de mais ninguém. Isso me faz feliz. Saber que superei o meu limite, esforcei-me para ir adiante mesmo quando todos os caminhos estavam obstruídos é a recompensa que espero ter. Encarar meu rosto no espelho e ver o brilho dos meus olhos, tendo a certeza de que não refuguei, como o cavalo que teme o obstáculo.
O apoio do próximo é crucial, mas não determinante. Às vezes o companheiro de jornada nos deixa em apuros e cabe a nós buscarmos a solução. Infelizmente estamos sozinhos, e continuar é de nossa inteira responsabilidade. Não é que as mãos não sejam estendidas, mas chega uma hora em que temos de estender a nossa e puxar aquele que fraqueja. Não podemos, entretanto, deixar que o desânimo do outro mine nossas conquistas. Haverá uma hora em que os nossos passos ficarão mais fortes e por muito tempo ficaremos sozinhos.
O que fazer? Virar os passos e fazer o caminho de volta para casa? Arrepender-se, sentir-se vazio? Até mesmo a desistência é difícil, pois envolve os laços afrouxados. Quem irá ceder no fim? Quem irá fugir de si mesmo diante do reflexo envergonhado? Quero seguir até as pernas doerem, bambearem; a vista ficar turva e os músculos fraquejarem. Quero ultrapassar os limites e ser recompensado pela minha satisfação.

Venha comigo! Vamos fazer de nossas vidas algo diferente. Vamos seguir adiante, eu lhe estendo a minha mão. Não quero lhe deixar para trás. Quero vencer, mas quero dividir a vitória com você.


Alberto da Cruz

21 de agosto de 2012

Contos de Fadas


Contos de fadas não existem. Não adianta esperar pelos mágicos acontecimentos que pululam em nossos sonhos, pois eles não existem. Vivemos sonhando com o príncipe encantado ou com a bela e perfeita princesa, mas eles não existem. A magia do amor verdadeiro, capaz de salvar da morte certa, também não existe. Iludimo-nos com as histórias da infância e carregamos por nossa vida a esperança de que os sonhos insólitos se realizem, com a ajuda fantástica da Magia, mas ela não existe. E insistimos em crer no fantástico, buscando a borboleta perfeita.

Esperar pela magia simplesmente acontecer ou apenas viver o amor nosso de todo dia? O príncipe encantado não virá montado em seu belo cavalo branco para prometer um final feliz no fim da sua vida. Não existem finais felizes, nenhum final é feliz. O conto, em geral, termina com o casamento e a promessa de eterna alegria, como sabemos.  Mas e o casamento? Seria a união de um casal a felicidade tanto exaltada nas histórias fantasiosas? Às vezes a felicidade está no divórcio! Um casamento é muito mais do que a utopia pregada nas narrativas. É claro que uma pitada de fantasia faz bem, mas fazer dela a razão é um engano fatal. Sempre nos decepcionamos.

Procurar o outro no espelho é um erro. Ninguém é igual a ninguém. Não adianta buscar uma pessoa idêntica, são as diferenças que fazem um relacionamento ser divertido, pois a monotonia é uma premissa para o fim. Saldamos com fervor os opostos, já que eles se atraem. É preciso amar as diferenças, respeitar as imperfeições e, quem sabe, admirá-las. Lembremos que não somos perfeitos, não somos formados por virtudes, mas uma mescla de qualidades e defeitos. O verdadeiro amor reside no respeito mútuo, na individualidade, na realidade de cada um.

Deixemos, pois, os contos de fada nos livros. Eles servem para entreter, para pintar de novas cores a vida, mas não podemos transformá-los em nossa vida. Vamos assumir que somos imperfeitos e felizes com nossas virtudes e com nossos defeitos. Essa é verdadeira magia.

12 de agosto de 2012

A derradeira estação


     Como um invisível, caminho pela rua. As pessoas parecem não me ver. Sou o nada perdido na multidão apressada. Vozes nervosas, o motor dos carros, gritaria de vendedores e eu, inútil ao mundo, em minha caminhada insignificante. Quem olha pelo velho que se arrasta no movimento rápido de um fluxo insano? Ninguém se apieda dos difíceis passos lentos, reclamam da lentidão na velocidade de um tempo egoísta.
     Estou só. Não, não. Sou só. Minha esposa morreu há alguns anos. A minha amada me deixou para trás na viagem ao desconhecido. Deixou-me ou fui eu quem me atrasei para o trem? Quando cheguei à estação ele já havia partido, levando meu conforto em seus vagões empoeirados e frios.
     Meus filhos já não se lembram de mim, a não ser, é claro, quando precisam do meu pouco dinheiro. Três belos rapazes. Varões do meu orgulho ferido. O mais velho advogado, o meu doutor de terno e gravata, sempre apressado com a valise de couro italiana na mão. Tenho pendurado na sala o seu retrato imponente, que observo quando sento na poltrona e assisto ao meu passado nas lembranças. O do meio é engenheiro não sei de quê, a memória me falha. Mas sei que é um homem importante. Trabalha numa empresa dessas que rodam o mundo. Já o caçula, criatura mimada por minha mulher, é um perdido na vida. Falei para Dolores que esse menino daria problemas. Meteu-se a ser artista. Vagabundo, isso sim. Meus filhos são traças a devorar minhas páginas amareladas, sem se preocuparem com o texto escrito nas linhas duras da minha vida.
     A velhice é a morte sem estar morto. As rugas no rosto já não são sinal de respeito, geram zombaria e desprezo. Ninguém me vê, e eu continuo andando lentamente pela rua cheia de pernas agitadas.
     Faz muito calor. Meu terno de brim desgastado me esquenta o corpo como se eu estivesse numa estufa. O chapéu protege a cabeça, mas me ferve o couro. Fico tonto. Houve um tempo em que os homens de respeito se vestiam bem. Éramos alinhados, impecáveis. Dos sapatos ao chapéu, desfilávamos impecáveis pela rua, cheios de vaidade. Os jovens nos olhavam admirados, as mocinhas se riam. Dávamos bons dias, boas tardes quando topávamos com os outros nas caminhadas. Eu tinha amigos. Mas eles também embarcaram no trem que me levou Dolores. Os jovens hoje riem de mim quando passam com seus bonés da moda, jeans e camisetas esportivas. As mocinhas andam quase nuas, exibindo seus corpos sem nenhuma vergonha. Uma afronta! Por que fiquei para ver a decadência moral do mundo?
     Sou um relógio quebrado, parei no tempo.
     Lá vem uma mocinha sorridente. Ela caminha com pressa, sem olhar para os lados. Atrás dela, um delinquente lhe arranca a bolsa e corre. Ninguém faz nada. Todos fingem não ver que o rapaz a jogou no chão e corre com seus pertences. Brado a bengala no ar. Quero acertá-lo em cheio, mas ele me joga no chão, quando passa por mim. Ninguém faz nada. A mocinha está chorando. As pessoas olham para ela, mas nada dizem. As pessoas olham para mim e riem.
Tento me erguer. As costas doem, as pernas doem, os ossos doem. Com lentidão me arquejo. As mãos espalmadas no chão num esforço brutal para me pôr de pé. A bengala me ajuda, as pessoas não. Onde este mundo vai parar? No meu tempo, o marginal estaria preso. Não o deixariam fugir com a bolsa da mocinha sorridente. Ela estaria amparada pelos homens de bem. Hoje não. Hoje a mocinha sabe que perdeu tudo o que tinha, ela sabe que a impunidade é maior do que a dignidade.
Alguém poderia pegar o meu chapéu caído ao meu lado. Alguém poderia ajudar o velho que se arrasta a recompor-se, mas ninguém ajuda. Com dificuldade a bengala, fiel amiga, o ergue no ar. Cubro novamente o couro sem pelos. Um dia eu tive muito cabelo. Era vaidoso. Penteava a cabeleira com satisfação. Mas os fios enfraqueceram. Perderam a cor e caíram tão rápido que nem percebi, ou não tive tempo para perceber. Sou da época em que o homem trabalhava para prover o sustento da família. Essa história de mulher trabalhar não era bem vista. Meus filhos permitem que suas esposas trabalhem. Vejam só que disparate! Esquecem a educação que lhes dei. A mesma que meu pai me dera. Tenho vergonha de dizer que meu caçula come porque sua esposa põe a comida na mesa. Meu próprio filho... Que decepção me destes, João Francisco!
     Retomo os passos. Que sofreguidão é minha caminhada. Queria ver o mar, mas a praia é, para mim, tão distante quanto outro planeta. Eu frequentava a praia nos finais de semana. Vestia meu calção e nadava como um peixe. As crianças brincavam na areia, enquanto Dolores as vigiava com zelo. O meu filho do meio fazia castelos na areia, mas as ondas os derrubavam com voracidade. Ele chorava. Quando fez a primeira casa, eu disse para tomar cuidado com as ondas. Ele ria. Pedro Paulo constroi casas. É engenheiro de alguma coisa. Trabalha muito, o coitado. Vive rodando o mundo, enquanto a mulher trabalha num banco federal. Ganham muito dinheiro, mas não me visitam faz anos. É porque ele trabalha muito e está sempre viajando.
     Como me doem as pernas! Queria me sentar na antiga confeitaria da esquina e beber alguma coisa. Mas a confeitaria não existe mais, como não existe mais o Pacheco. Todos os dias eu me sentava à mesa do canto, sempre a mesma, e pedia ao Pacheco um café preto e uma fatia de bolo, enquanto observava a manhã nascer. Mas a confeitaria não existe mais. Fechou as portas com a morte do velho amigo. O filho, o Pachequinho, vendeu o prédio para uma dessas lojas que oferecem de tudo.
Quando Dolores se foi, Pedro Paulo quis vender minha casa também. Falou que era muito grande para um velho como eu viver sozinho. O pai vai ter lembranças ruins, disse para o irmão mais velho. Eu não queria sair da minha casa, mas o Luís Fernando me disse que seria melhor vender antes que desvalorizasse a propriedade. Se o Luís Fernando disse que seria melhor, então era verdade. Meu mais velho não conta mentiras. Uma vez, quando era garoto, disse que estava na escola, mas eu o peguei com um bando de desajuizados batendo perna na praça. Levou uma surra na frente dos amigos, da namorada. Apanhou tanto que nunca mais mentiu. Por isso confiei no meu filho. Assinei o tal contrato de venda da casa de olhos fechados, mesmo sabendo que entre aquelas paredes antigas ficariam as lembranças da minha Dolores.
      No apartamento que moro de aluguel, as coisas se amontoam empoeiradas. O Luís Fernando me disse que hoje em dia ninguém mais compra casas. É perda de tempo, pai. Alugar é mais fácil, explicava-me com paciência. Sinto falta da minha casa, do jardim da Dolores, do cheiro das flores, mas me acostumei com a falta de cor do apartamento. A paisagem da janela do quinto andar pelo menos é bonita. Posso ver a praia, as pessoas, o Cristo. Mas é tudo tão distante, tão triste, que prefiro sentar na poltrona velha e olhar para os retratos que o porteiro pendurou na parede da sala, porque meus filhos não puderam me ajudar. No começo tive muito medo de morar sozinho naquele lugar estranho, mais medo ainda de entrar no elevador. Aquela caixa de ferro me faz pensar na morte. É o caixão metálico onde me divirto, subindo e descendo os andares até que o Antenor, o porteiro que me pendurou as fotografias, muito gentil, aconselha-me a descansar. Ele se preocupa muito comigo. Deve ter a idade do Pedro Paulo. Mas coitado, não teve a mesma sorte. Passa o dia inteiro sentado na portaria abrindo o portão de ferro da entrada do edifício. Não ganha bem, por isso sempre lhe dou um agrado quando recebo o dinheiro da aposentadoria. A economia do país mudou muito. Eu pensei que o meu ordenado seria melhor, mas o Luís Fernando me disse que o país está enfrentando uma crise financeira muito grave. Ele cuida das minhas finanças e todo mês, direitinho, me entrega o dinheiro que ele recebe no banco, descontando o aluguel e as outras despesas da casa. Meu filho é muito responsável.
     Não consigo entender por que o João Francisco saiu tão diferente. Deve ter sido por causa dos mimos da Dolores. Vá lá, um artista! Vagabundo sustentado pela mulher. Gosta mesmo é de aparecer nos jornais. Sempre que ele vem me perturbar com essa história de ir morar com ele e a mulher me traz um jornal com uma foto dele e de sua arte. Tanto esforço para educar as crianças, e o infeliz perde tempo pintando porcarias que não consigo entender. Faço arte contemporânea, pai; ele diz quando reclamo da sua vida. Mas me irrito mesmo quando fala mal do Luís Fernando. Vejam só, dizer que o meu mais velho rouba o meu dinheiro! É um desaforado, esse menino. Até parece que o Luís Fernando iria me roubar. O João Francisco e aquela mulherzinha esnobe com quem ele se casou é que querem meu dinheiro. Eu sei que esse negócio de arte não enche a barriga de ninguém, por isso eles querem me levar tudo. Quer que eu vá morar com ele para pôr aquelas mãos sujas de tintas no que é meu. Mas eu não vou. Ele é que vá procurar um emprego de homem, como o do irmão.
     O Luís Fernando não levou o meu pagamento neste mês. Mês passado também. Coitado, deve estar envolto a processos no escritório e ainda se meteu a entrar na política. Vai ser deputado! Faço questão de votar no ano que vem, mesmo não gostando de política. Mas essa história me aborrece um pouco. Ele estava tão magro quando deixou o dinheiro com o Antenor. Nem falou comigo. Quando eu o vi, já estava do lado de fora do portão. Apressado como sempre.
     O aluguel está atrasado. O síndico bateu à minha porta ontem para cobrar o pagamento. João Francisco insistiu para que eu fosse morar com ele, mas eu não quero nada daquele ingrato. Como ele pode dizer que o irmão mais velho está me fazendo de bobo! Desrespeito. Ninguém pode manchar a imagem da família.
Minhas pernas estão queimando. O edifício onde o Luís Fernando trabalha é enorme. Subir e descer os andares deve demorar muito. Mas o porteiro não me deixa em paz. Eu entro no elevador e há um homem sentado num banco que me pergunta para qual andar eu vou. Digo que é para o décimo quinto. Ele aperta o botão. A caixa metálica sobe, sinto um frio na barriga. A porta se abre. Ele me manda sair. Queria subir ao último andar e descer ao térreo antes de saltar do elevador, mas o homem me lança um olhar intimidador. Atravesso o corredor vazio. Meus sapatos ecoam pelas paredes. Vejo a sala do Luís Fernando e me encho de orgulho. Entro devagar.
     A secretária olha para mim com desdém. Eu não sou qualquer um. Digo que quero falar com meu filho, mas ela me responde que ele não pode me atender sem hora marcada. O descaso com os velhos. Vou mandar que Luís Fernando a demita. Ela não perde por esperar. Insisto para entrar, mas ela não deixa. Ergo minha bengala, furioso. Não sei de onde surge um segurança que me põe para fora da sala e me acompanha ao elevador. Tento argumentar, mas ele me enxota como seu eu fosse um desocupado.
     Estou na rua novamente. Meus passos são lentos na velocidade do mundo. As pessoas me esbarram como se eu fosse invisível. Os jovens de bonés e calça jeans riem do meu terno desgastado e do meu chapéu.
Quero voltar para casa, para minha Dolores, mas me lembro de que a casa não existe, de que Dolores também não. São lembranças distantes na vida amarga. Meus passos são vagarosos. As pernas fraquejam. Estou tonto. Preciso de um táxi. Ergo a mão, fazendo sinal, mas me lembro a tempo de que a carteira está vazia. Meus remédios para a pressão acabaram. Minha cabeça dói, mas não sei se é por causa do sol ou da hipertensão. Aquela secretária vai pagar caro pelo que fez. Quando o Luis Fernando vier me ver, vou contar tudo para ele. Ela vai para a rua na mesma hora.
Pedro Paulo está na França. Ou na Itália? Já não me recordo. Ele foi para a Europa logo depois que venderam minha casa. Mandou-me um postal ano passado. A cabeça é falha, era a Torre Eiffel ou a Torre de Pisa? De fato era uma torre europeia. Se ele estivesse aqui iria fazer aquela estúpida funcionária pedir desculpas de joelho, porque Pedro Paulo quando está irritado assustaria até Fidel Castro. Mas ele está na Europa. Quando voltar de lá não valerá a pena contar para ele. Queria só ver meus netos. A última vez que os vi ainda eram muito pequenos. Sou um avô desnaturado, não me lembro dos nomes. São dois meninos... Ou serão duas meninas?
      Continuo o meu caminho. Vejo a estação de trem. Aperto o passo, ignorando minhas dores. Meto a mão no bolso. Há um bilhete para o próximo trem. Confiro o horário. Olho para o relógio. Se me apressar não o perco desta vez.
O fiscal está à porta do vagão recolhendo os bilhetes. Afoito, entrego o meu. Minhas pernas não se aguentam. Sento numa poltrona. Há uma bela mulher ao meu lado. Ela usa um vestido parecido com o que Dolores usou quando nos conhecemos. O seu chapéu é igual ao de Dolores. Ela sorri para mim com felicidade. É a minha Dolores sentada ao meu lado.
     Demoraste tanto a vir, José; ela me diz com sua voz suave. Está nova, sem rugas, sem o peso do tempo, linda como antes. Eu também me remoço. Minhas dores não mais existem. O trem apita fortemente. Está de saída. Desculpa-me, querida, perdi a hora; digo feliz pelo reencontro tardio. O vagão se movimenta nos trilhos. Seguro as mãos da minha mulher e finalmente desenho um sorriso.

Alberto da Cruz

11 de agosto de 2012

My Soul

Quando comecei a pedalar, e não faz muito tempo, foi numa Rainbow full-suspension que herdei do erro de uma loja. Depois de ter ficado meses dentro da caixa, montei-a sem que eu nunca tivesse rosqueado um parafuso de bicicleta. Deu certo, até porque essas bicicletas já vêm “reguladas” de fábrica. As linhas eram muito bonitas, robusta, elegante, pesada e ruim, como todas essas bicicletas de “supermercado”. Montada, calibrei os pneus, dei uma volta na minha rua e a guardei na garagem por dois anos, ou mais. Sedentarismo, preguiça, medo, falta de companhia, não sei, talvez tudo isso e mais um pouco. Confesso que o trambolho na garagem era um ótimo acumulador de poeira e só atrapalhava. Pensei em vendê-la e fazer um trocado, já que não gastei um centavo com ela, mas sempre dizia para todo mundo que iria pedalar, mas nunca montava no selim. Quando finalmente resolvi pôr as correntes em movimento, não tive escolha a não ser passar na bicicletaria e sanar os problemas do descaso. Tudo pronto e regulado, ainda enrolei uns meses para começar a me divertir.
 
Percebi, pouco depois, que uma bicicleta bonita e barata é uma bicicleta bonita e ruim. Quando ouvi uma conversa dos mecânicos sobre preços de bicicleta, achei aquilo loucura. Onde já se viu uma bicicleta custar mais do que um carro! Pagar mil, dois mil reais em uma bike era um luxo para quem tem dinheiro sobrando. Pagar mais de dez mil, para mim, já era mais do que loucura. Mas, na prática, percebemos que os componentes fazem a diferença e que aço carbono é pesado demais. Nada funcionava direito, as marchas estalavam, não entravam; a pedivela pegava no quadro; era uma tormenta. Certa feita o dono da bicicletaria fez um comentário sobre a minha lindíssima full e foi o bastante para que resolvesse mudar de bicicleta. Não dava mais.
 
Na infância, as propagandas de bicicleta enchiam os olhos com o famoso slogan: “não esqueça minha Caloi”. Logo, se fosse para trocar, seria por uma Caloi. Desde pequeno, quando parei de cair da Ceci de uma prima e me aventurar numa aspen do meu primo, quis ter uma Caloi, mas nunca tive. A nova companheira seria uma Caloi. Para não jogar dinheiro fora começando algo que talvez não levasse adiante, escolhi um modelo bonito, com suspensão dianteira e de... aço carbono. Não que esteja reclamando, mas a Andes cumpriu o seu papel, levando-me para todos os lugares que quis ir, para o mato, para a estrada, para a areia. Com o tempo, vamos descobrindo as coisas, nos aprofundando no assunto e conhecendo melhor a utilidade de cada componente. Sabia, quando comprei a Andes, que não seria por muito tempo, caso realmente pegasse o gosto, só não imaginava que o tempo fosse ser tão curto. E aquelas bicicletas de mil, dois mil reais já estariam na minha lista de favoritos como compra futura, assim como as de mais de dez mil reais, um sonho.
 
Pouco dinheiro e muita vontade, pesquisei, namorei, desejei variados modelos que atendessem ao que queria. Nada profissional, mas um modelo mais moderno, com linhas atuais e um bom conjunto, uma vez que sou entusiasta e ainda iniciando no esporte. As dúvidas surgiam a cada modelo: v-brake ou a disco; disco mecânico ou hidráulico; quantas marchas; qual grupo; qual marca; quanto poderei gastar? Cansado de tanto procurar, encontrei uma Reebok Trakker em promoção. Bonita, no meu tamanho, grupo básico da shimano... Estava quase convencido de que encontrei minha nova companheira de aventuras, mas ainda havia dúvidas, principalmente por ter como maior marketing a tecnologia dos adesivos. Adesivos?
 
Pesquisando num fórum confiável, o mesmo que me fez pensar em uma Canadian, esbarrei numa comparação entre a Reebok e a Soul Cycles. Já havia visto bicicletas Soul em vários sites, achei-as bonitas, mas não conhecia a marca. E voltamos às nossas buscas nos mecanismos de pesquisa. Li, reli, assisti e me apaixonei pela marca nacional. Não hesitei mais nenhum minuto. Minha próxima bicicleta seria uma Soul. Inicialmente o plano era para o fim do ano ou início do próximo, afinal a Caloi ainda tinha muito a oferecer, mas não consegui. Queria uma SL imediatamente. Acabei finalizando a compra de uma SL70, modelo básico, já que sou iniciante. Não havia motivos para gastar mais do que o necessário. Estava satisfeito, mas já pensando em melhorias futuras.
 
Ao chegar em casa, depois de muita espera, encontrei a caixa da soul Cycles em minha sala. Parecia uma criança abrindo o presente de natal. Feliz era pouco. Ao vê-la de perto, pessoalmente a satisfação foi muito maior do que o previsto. A bicicleta é linda, macia, confortável, ágil e o melhor de tudo: leve. Nada de aço, tudo de alumínio.
 
Não vejo a hora de encarar os novos pedais, de me sentir livre, de respirar o bom ar da natureza, enfiar as rodas na lama, atravessar os rios, queimar o asfalto e ser feliz com minha nova companheira.
 
Para o final do ano, já passei na bikeshop e orcei as melhorias... A vida em duas rodas virou um vício, um estilo gostoso de vida.
 

Alberto da Cruz