14 de julho de 2011

Todo amor se acaba com um motor batido

Sou um amante de carros. Completamente apaixonado por essas belezinhas automobilísticas. Passo horas admirando modelos, lendo revistas especializadas e sonhando com máquinas belas e potentes. A paixão é tão grande que gera ciúmes diversos, por isso tenho medo de que a mulher amada me peça, um dia, para escolher entre ela e os carros. Ficaria em uma sinuca impossível de sair, na saia justa mesmo. E pior ainda seria dar uma resposta. Imaginem a cena:

“— Não dá mais para disputar sua atenção, querido. Ou esse maldito carro ou eu!
Silêncio.
— Querido, ou o carro ou eu?
Mais silêncio.
— Porra! Será que você pode parar de encerar essa merda pela milésima vez e falar comigo?
— Depois de polir ele vai ficar lindo, não é?”

O carro para o homem não é somente um meio de transporte, é a extensão de o seu próprio ser. Um pedaço projetado pela engenharia que, em muitas vezes, diz quem ele é. Na busca por “status”, o desejo por um modelo de marca famosa e série limitada é comum a todos, desde o jovem ao homem feito. Desfilar pelas ruas da cidade com seu novo automóvel faz bem ao ego masculino, tão bem quanto o quarentão que exibe sua namoradinha de 18 anos. Se juntar os dois então, teremos a vida perfeita.

Talvez por isso, cuidamos tão bem de nossos amados carros. Facilmente dizemos uma série de nãos, inventamos diversas desculpas, até mesmo doenças que nos põem de cama por tempo indeterminado, para não varrer a casa, lavar o banheiro, arrumar a cama, o que seja; mas para pegar a mangueira e ficar horas sob um sol escaldante molhando o carrinho, não há mal que nos impeça.

" — Querido, você não estava passando mal? — pergunta a esposa.
— Estava não, meu bem — responde o marido, levando a mão ao estômago e fazendo cara de dor — estou ainda.
— Então o que é que você está fazendo aí?
— Nada não.
— Como nada não?
— Sabe como é, eu estava lá na cama, sentindo dor. Vim pegar um pouco de sol, senti calor e resolvi molhar a cabeça. E já que a mangueira estava na minha mão, eu não iria deixar o carro ficar com vontade, né?
— Hã!? E a louça que pedi para você lavar?
— Ai que dor! Acho que, assim que terminar aqui, vou me deitar um pouquinho.
— Puta que o pariu — resmunga ela, batendo a porta da cozinha."

Posso facilmente comparar o carro a uma mulher, com a diferença de que, por incrível que pareça, gastamos mais e muito mais felizes com nossos carros. Se falta dinheiro para renovar o guarda-roupa, comprar melhores iguarias culinárias, arrumar as necessidades da casa, vamos empurrando como dá, privando-nos de várias coisas para, assim que a situação desapertar, dar um jeito. Mas se o carro apresenta um mínimo sinal de problema, corremos ao mecânico e assinamos o cheque sem pensar duas vezes, mesmo que o valor do conserto ultrapasse o nosso ordenado. Afinal cheque especial existe para isso, não é mesmo?

Não há maior prazer do que, num sábado de sol, passar o dia inteiro lavando a lataria com água e sabão especial. Encerar delicadamente cada parte como se fosse o corpo de uma magnífica mulher. Retirar o pó do interior com cuidado redobrado para não riscar o painel. Aplicar silicone nas partes plásticas para revitalizar o que foi gasto. Horas de deleite, impagáveis momentos em que o dono e o carro comungam como um casal perfeito, sem brigas, discussões ou insultos, somente o amor de um com o outro como bons amantes que são.

Dirigir é uma terapia que custa só o preço da gasolina. Eu, quando tenho um problema, não penso duas vezes, corro à garagem e pego a estrada. Abro os vidros e deixo o vento entrar. Ouço o som dos pneus no asfalto e me esqueço da vida e dos males que carrego em minha cabeça. Quando regresso, não tenho mais nada para me perturbar, um pouco fica em alguma curva, outro no pisar no acelerador, outro na troca de marchas e o último problema, na arrancada forte que faz o coração disparar.

Amo os carros, mas, às vezes, o afeto não é retribuído. Todo amor se acaba com um motor batido.

Alberto da Cruz

11 de julho de 2011

O ontem, hoje

Engraçado como as coisas se pintam na vida. Às vezes se tem tanto a dizer, mas o interlocutor é surdo aos nossos delírios, ou somos mudos quando realmente temos algo de importante a dizer. Passamos por crises diversas na vida, umas importantes demais, outras insignificantes, mas, em geral, são essas que não têm o grande peso que nos põe loucos, ou à beira de um ataque de nervos.

Perdoem-me os amigos, mas estou hoje um tanto sentimental, saudosista, nostálgico. Falta-me o fogo, esfriou o quarto tão de repente, que não tive tempo de buscar o cobertor. Será que o presente está rumando para o passado? Não me entendo quando se trata da emoção. Talvez seja a estrela que morreu, extinguindo seu brilho. Não, realmente não entendo.

Sinto saudade no meu peito, e minha consciência grita como um desesperado em agonia. Tenho saudades, mas não sei se do hoje, ou do ontem longínquo residente nos escombros da memória. Está tão frio aqui. Não me sinto à vontade, não sei mais dizer palavras confortantes, amorosas, românticas. Algo em mim está morto, ou apenas ausente. Tantas dúvidas, tantas indecisões, nenhuma certeza do que havia pouco era o Certo. Mas há certeza em algo, quando a vida é cheia de surpresas e reviravoltas indiferentes à nossa simples vontade?

Sem querer, pus-me de frente ao passado. Escolhas. Desleixos. Inocência. Descuidos. A vida tão surpreendente quando nos guia o caminho por onde nunca imaginávamos passar.

Quem imaginaria, num dia comum, esbarrar com dois passados, ao mesmo tempo, juntos? Dois passados sorridentes, numa caminhada despreocupada pelas ruas do presente. O tempo. Os anos correm, as pessoas envelhecem, perdendo a beleza da juventude. As bocas, os calafrios, os sentimentos, tudo muda; nada permanece igual ao que era antes. Corpos, bocas, nucas. O cheiro, este não muda. As paixões do antes não voltam ao coração. Só mesmo na etimologia, trazemos de volta as imagens perdidas nas falhas da memória. Duas bocas. Duas línguas. Dois corpos. Todos somados a um, formavam um triângulo saudoso de cheiros, cabelos, pelos unidos sobre o mesmo lençol.

Quantos anos se foram no calendário das vagas lembranças? No mínimo dez, onze talvez. Quantas palpitações de corpos se perderam? Quantas carícias? Quantas juras em segredo? Foram amores verdadeiros ou devaneios de paixão? Ah, nada melhor do que o cheiro do passado como o da chuva fina no asfalto!

As três bocas estalaram em toques no rosto, acompanhadas de palavras aos surdos, ditas como mudos, em passos que se separaram depois. As bocas, os corpos se foram. E eu fiquei imóvel em meu instante. Mas agora sinto o gosto que o tempo malogrou. As bocas que foram minhas, e hoje nada são. Os corpos que tive, e hoje não passam de cogitação.

Façamos, então, um brinde ao ontem, como singela lembrança da juventude expirada; como uma sutil recordação do que já não volta, nem vale a pena voltar.

Alberto da Cruz

9 de julho de 2011

Obrigado, Cabral

A forma com que Sérgio Cabral, governador do estado do Rio de Janeiro, trata os professores é vergonhosa. É indecente a proposta de incorporação do Nova Escola aos vencimentos dos servidores. Não bastasse as diferenças de valores na gratificação, o governador ainda propõe a diminuição do plano de carreira, obtido depois de muitas discussões.

Depois de anos sem reajuste salarial, tivemos o desprazer de ouvir propostas risíveis nos últimos anos. Um aumento de doze por cento, dividido em pequenas prestações soou como desrespeito. Quando finalmente tivemos a boa notícia da incorporação do piso máximo aos nossos mirrados vencimentos, poucos acreditaram, e fizeram bem em não acreditar em tamanha lorota.

Sérgio Cabral se comprometeu em nos conceder este aumento em parcelas anuais até o ano de 2015. Um ultraje à categoria que sofre todos os dias com salas lotadas, com a falta de estrutura das escolas e um salário que, em breve, será menor que o mínimo.

Ontem houve votação na Alerj para a lei que diminuiria nosso plano de carreira e nosso aumento salarial parecido com um carnê das Casas Bahia. O que se viu foi o cúmulo do desrespeito ao educador estadual. Policiais lançaram bombas de efeito moral nos professores que acompanhavam a votação, deixando feridos os profissionais que lutam pelos seus direitos ignorados por um governante sem escrúpulos, como todos os outros que prometem e nunca cumprem. Não bastasse a violação dos nossos direitos, ainda agridem o professorado, um dos alicerces da formação e transformação social, moral e fisicamente.

Devemos lembrar ao nosso governador que não somos criminosos, apesar de nos tratarem como seres marginalizados. Não somos arruaceiros, somos professores querendo melhores condições de vida, um salário justo e, principalmente, respeito.

Não me admira o estado do Rio de Janeiro ser tão violento, depois da selvageria de ontem. Uma polícia despreparada, professores miseráveis, governantes hipócritas. A soma desses fatores mostra a cara do Rio de Janeiro: o paraíso para quem é de fora, um inferno para quem está dentro.

Agora vamos esperar até 2015 para receber a nossa esmola. Continuar ensinando, porque somente o amor à educação nos motiva a entrar nas salas de aula, já que o incentivo é a base de presentes desnecessários e investimentos duvidosos.

É melhor ter cuidado com a greve, pois se não tivermos, ficaremos também sem a merenda que, muitas vezes, é o único prato que vemos sobre a mesa.

Obrigado, Cabral, por expor ao Brasil a miséria do educador fluminense.

Rio de Janeiro,
09 de setembro de 2009

4 de julho de 2011

O revés do desgosto

Sempre que discutimos sobre alguma coisa que ocorreu conosco, ouço que só me lembro dos fatos ruins, como se não existissem bons momentos em uma relação. Obviamente, no calor insuportável de nossas brigas, eu só menciono as palavras mal interpretadas ou as ações impulsivas que provocaram algum tipo de sofrimento, na maioria das vezes em mim. Acredito que faça parte dessa hora em que a tensão misturada com a raiva ganha a razão em um jogo desigual. É difícil ponderar quando o sangue está fervilhando. Os erros vêm novamente à tona, não por maldade, mas acabam saindo sem que eu perceba os danos que causo com minhas palavras rudes em meus estúpidos momentos de raiva — e ultimamente eu tenho andado como um cão raivoso, perdendo a paciência facilmente e agredindo qualquer um que me olhe atravessado. O estresse do fim de ano acaba comigo, embora eu tente lutar tenazmente para manter a calma. São provas intermináveis para corrigir, dezenas de diários para fechar, reuniões extraordinárias, conselhos de classe, contas a pagar, textos para entregar, fila de banco, fila de correio, presentes de natal, escolhas, decisões e eu cada vez mais nervoso com o pouco tempo que me sobra no meio de toda essa loucura.

Como as intempestividades ocorrem sem que possamos mudá-las, faz-se necessário domar a fúria negativa que me assola como um leão faminto numa jaula, pois, caso contrário, suas garras podem dilacerar facilmente aquele que provém seu alimento. Não é diferente conosco. Quando brigamos, acabo dizendo o que era melhor calar, a fim de não ferir. O grande problema é que não me calo e, agindo como um violador de túmulos, desenterro mágoas que deveriam há muito ter sido esquecidas. Não lembrar as dores passadas é essencial para a construção do futuro quando não trazem nenhuma lição importante. Não é que não a tenha, mas não se faz preciso dizer do que já foi. Devemos, pois, olhar adiante e buscar novos caminhos para deixar as coisas melhores, sem a sombra do pesar. Não sei ao certo, mas me parece que lentamente estou aprendendo sobre minhas dores na alma, deixando descansar em paz os mortos de minha mente, lutando contra meus fantasmas. Mas não me tem sido fácil enfrentar essa horda nociva sem sair ferido do combate.

Se no momento de mágoa deixo escapar os tormentos, não quer dizer que a nossa vida a dois seja um eterno desgosto, pelo contrário. Passamos juntos os melhores momentos que já vivi. Nada se compara a ternura de um dia com ela. Quando solitário em minhas ilusões ouço o telefone tocar, com o coração a bater desenfreadamente, espero que seja ela do outro lado da linha. É difícil explicar a alegria que me toma quando ouço sua voz gostosa me dizer palavras simples como apenas um “oi”. Quando vejo seu sorriso depois de um dia cansativo de trabalho, meu mundo inteiro parece parar para admirá-la e o cansaço se esvai rapidamente, surgindo em mim uma força que nem sequer imaginava existir. Ao encontrá-la, num abraço saudoso, sentir o calor de sua pele é o contentamento contra as minhas frustrações diárias. Em sua boca morre minha inquietude quando me aprazo com seus beijos carinhosos de ternura. E quando detenho seu corpo delicado sob o meu, bruto, sou uma fênix renascendo das chamas do meu caos para uma vida mais cheia de amores.

Nessas horas de deleite, não há mácula que perdure. Todos os sentimentos de desgosto se vão ao primeiro toque, às vezes nem mesmo isso, pois somente um olhar choroso seu me faz retroceder em minhas decisões impensadas e correr para os braços como uma criança carente aos braços da mãe. E a amo mais, muito mais do que antes, pois só a possibilidade de perdê-la me faz entrar em pânico. Quando a vejo, ainda sinto tremerem minhas pernas e meu coração bater muito mais forte. Se isso é paixão, o fogo voraz que queima rapidamente e logo se apaga, esta dura mais e mais e mais, chegando ao ponto de se fechar um ciclo anual e ainda assim o calor no corpo é o mesmo em proporção crescente do que no início de nosso sério compromisso. Certamente o que temos não é paixão, é mesmo Amor. E não é só desejo, nem um laço físico. O que temos transcende os limites corpóreos e sobe aos céus sublimado.

Alberto da Cruz

20 de junho de 2011

Desgosto

Dos meus defeitos, e não são poucos, talvez o pior seja não esquecer o que me magoou, independentemente de quando ocorreu o fato feito em meu desagrado. Sei que isso é prejudicial não só a mim, mas também às pessoas com quem eu me relaciono, mas não consigo deixar de pensar no que aconteceu, foi dito, ou não. Parece-me que a mágoa é recente, apesar de ter sido há muito tempo. A dor é a mesma, a raiva é igual e o desapontamento é tão grande quanto no dia exato em que me senti agredido, ferido e humilhado.

Mesmo que me peçam desculpas por me magoarem, não consigo perdoar totalmente. As desculpas não fazem a ferida no peito parar de doer. Amenizam o estrago causado, porém não apagam o mal que me foi feito. Se são necessárias então? Obviamente sim. É o mínimo que o errante pode fazer para diminuir um sentimento de desgosto provocado por um descuido impensado. Não sei perdoar os erros dos outros, apesar de querê-lo. Minhas cicatrizes são expostas e sensíveis, voltam a doer a qualquer instante, com a mínima lembrança. Fecho o cenho no mesmo instante, franzo a testa com a mesma intensidade e, não raro, trato com desdém como se fosse hoje o mal feito ano passado, retrasado, dez anos atrás. Guardo mágoas como utensílios não usados cotidianamente em baús da memória, prontos para serem revelados caso precise. E não é por querer ferir quem me feriu em uma vingança infantil que faço questão de recordar a quem me causou tristeza para a proporção do meu ressentimento, embora tenha um pouco disso, não é o principal, nem o que admiro. Faço para que não se esqueça da falta; para que não se repita da mesma forma; para que se lembre de que pequenos gestos infelizes, os detalhes apenas, maltratam o coração. Mas lá no fundo, sinto-me satisfeito por fazer com que esse mesmo erro doa, como um tapa violento, no rosto de quem mo deu. Não sou de tudo uma pessoa vingativa, mas sou humano, não um mísero inseto sem a dádiva do sentimento.

Cazuza — novamente ele — conseguiu expressar um lado positivo nisso num verso genial de Muito obrigado (por ter se mandado), quando diz “pelos dias de cão, muito obrigado (...) me trair, me dar inspiração preu ganhar dinheiro”. Óbvio que a dor que se sente é lacerante, mas tenho que usar de artifícios para transformá-la em algo, no meu caso, arte. E quando ganho o meu suado dinheiro com ela, preciso agradecer pela iluminação artística. Mas queria antes de tudo não tê-la. Tenho-a e por isso hoje escrevo. O que me levou a pensar estas pobres palavras hoje foi um fato passado que já deveria ter sido enterrado e devorado pelos vermes, contudo, como já expliquei, é difícil demais para eu deixar as cortinas caírem para encerrar o drama da minha vida.

As pessoas, embora não reconheçam, vivem hipocrisias. Lembro-me de Gregório de Matos em seu “pequei Senhor, mas não porque hei pecado”, como se pecar fosse motivo para Deus ser feliz na glória da absolvição. Não sou Deus, nem passo perto de sua bondade, portanto não me venham com essa história de me contentar com um pedido de desculpas quando se sabe que seus atos egoístas provocam sentimentos ruins naqueles que os querem bem, a fim de abrandar a ira de sofrer o desengano.

Alberto da Cruz

19 de junho de 2011

Cuidado com o que dizer


Ser professor é dar um duro danado e quase nunca ter retribuição às noites acordado corrigindo provas, planejando aulas e estudando. Mas, às vezes, acontecem situações inusitadas, muitas vezes hilárias.

A aula era de Literatura. Entrei na sala e comecei a reclamar sobre o camarada que se apaixona e escreve poemas de amor.

— Poetas de ocasião versando sobre clichês românticos mais batidos do que vitamina na lanchonete da esquina. Com o coração se faz literatura ruim.

Alguns riem eufóricos, outros arregalam os olhos, alguns poucos se encolhem nas cadeiras com o olhar vazio.

— Pior, não contente ainda, o infeliz apaixonado traz os poemas encadernados, mostrar a sua péssima obra poética, sonhando ser o próximo Camões. Leio aqueles versos insossos, mal escritos, nada originais e, por incentivo apenas, teço um moderado elogio, sem deixar de lado o conselho para que leia bastante e escreva mais como exercício literário. Penso ter me livrado de tal moléstia, mas na semana seguinte, lá vem novamente o pseudo-poeta com mais versos inúteis. — forço uma expressão de desdém e continuo — Sim, estão muito bons — respondo com educação — mas continue lendo mais.

Faço uma pausa. Olhar perdido como se estivesse a ponto de me jogar pela janela.

— Não havendo nenhuma melhoria nos versos, nem mesmo um arremedo de originalidade, na terceira vez que recebo os poemas, olho de cara feia e ponho as poesias sobre a mesa sem interesse. O poeta fica triste, percebe que há algo errado, mas volta ao seu lugar, pensando que deve ser alguma coisa relacionada ao meu humor. Na semana seguinte não comento os textos, eles são tão ruins, melosos, ingênuos de mais para perder o precioso tempo em sua leitura. Não — brado para a turma. — Chega de lixo! Poesia não se faz com o coração. É com bons sentimentos que se escreve o lixo literário. A inspiração não faz o poeta, é preciso muito mais do que um sentimento comum como o amor para se fazer poesia. Portanto, parem de me mostrar péssimos textos inspirados por paixão. Na pensem que são poetas por estarem apaixonados. A poesia é muito mais do que uma dor de cotovelo. Parem! Vocês não são poetas! — digo exaltado, insuflando as veias.

A turma se entreolha. Não entendem o ódio do discurso.

Prossigo:

— Esta porcaria literária existiu no Romantismo, mas acabou, para nossa felicidade. Quem insiste nisso é um trouxa movido por sentimentalidades. Não é assim que se faz poesia. Para fazer versos é preciso o domínio da técnica textual, conhecer a língua com esmero, não fazer rimas comuns, buscar as palavras raras. Escrever é um trabalho árduo, cansativo. Não essa lamúria infeliz da alma apaixonada. Não se escreve com alma, se escreve com a inteligência.
Alguns alunos me fuzilavam com os olhos. Outros riam muito da minha exaltação.

— A literatura é arte, como tal deve ser feita com esse intuito. Valorizar a forma, cultuando sua perfeição exata — terminei o meu discurso e fui ao quadro, pondo-me de costas para a turma.
Enquanto escrevia “Parnasianismo” abaixo da data, ouvi um burburinho no fim da sala. Virei novamente para os alunos, dizendo, já sorrindo como de costume:

— Esse era o pensamento dos poetas parnasianos a respeito das artes poéticas, negando a produção romântica no século XIX.

Uma aluna deixava escorrer umas poucas, mas sentidas lágrimas.

— Professor — disse com a voz engasgada — o senhor pode devolver os meus poemas que deixei na sua mesa semana passada... — e rompeu num choro sentido.

Dizer depois que era somente uma brincadeira para exemplificar o discurso parnasiano não me livrou a cara. Ela até hoje me olha com raiva.

Alberto da Cruz

16 de junho de 2011

Ponto de Segurança... fail

Meu ponto de segurança e margem para desespero acabou ontem. Mas calma, amigos, não é nada grave — para os outros. Costumo mesmo fazer drama em tudo, afinal resquícios românticos ainda existem em mim. Leia-se bem: resquícios. Há muito não sou o poetaço romântico sentimentalóide de outros tempos, quando ainda pensava que as lágrimas vertidas no papel decoravam a página com minhas dores lacerantes e belas. Na verdade só manchavam a porcaria da folha e muitas vezes estragavam o trabalho poético. “Exagerado, eu sou mesmo um exagerado”, gritava Cazuza, grito eu.

Ontem à noite fiz a postagem de Eternos Amantes e me assustei ao correr os olhos no documento principal: as páginas escritas acabaram! Não tenho mais nada para postar semana que vem, não tenho nada pronto para postar semana que vem, nem mês que vem... Protelei meses para escrever o romance, acreditando que o que já estava pronto daria conta do recado até que eu desse cabo da história. Agora o cabo desceu com violência e minha cabeça e a história acabou comigo.

Volto a escrever, não por prazer, mas por obrigação, já que não tenho mais para onde correr. De certo, eu precisava mesmo queimar umas gordorinhas e acabar com esse sedentarismo que vem me cansando. Já estava na hora de começar o trabalho e de transformar o hiato em ditongo. Esta semana preciso entrar no clima de Eternos Amantes, preciso ouvir músicas que me remetam ao clima nostálgico de Cláudia, ao choro incontido e à dor de cotovelo de Luciana e, não menos importante, ao arrependimento de Jorge.

É sempre difícil regressar a um texto parado no tempo. Não é nada fácil voltar a uma vida esquecida e retomá-la de onde paramos, porque ninguém é o mesmo, todos mudamos, inclusive as personagens de um romance.

Alberto da Cruz

12 de junho de 2011

Dia dos Namorados


Hoje é o dia em que o namoro vale a pena. Hoje pra quem beija a mesma pessoa sempre tem presente. O dia dos namorados é mais uma data comercial do nosso calendário capitalista, afinal só se namora no dia 12 de junho, não é? Bem, para o comércio essa ideia é bem aceitável, desde que as vendas superem os dias normais, já que todo mundo namora, todo mundo gasta.

Veja bem, acordo cedo e peço uma farta cesta de café da manhã para o meu amor, R$100,00; uma mensagem no telefone não sai por menos de R$5,00; aquele buquê de flores para fazê-la suspirar arranca do bolso cerca de R$80,00; e ainda estamos de manhã. Vem o almoço, e a fatia mínima é de R$100,00; se o vinho for nacional. Depois de saciar o estômago, um passeio pela orla ou parque da cidade e mais uns trocados se vão com guloseimas e afins. A noite chega e com ela as maquininhas de débito. O jantar promete, e não é qualquer feijão com arroz, não. Jantar de dia dos namorados deve ser em um bom restaurante, afinal devemos impressionar, fingir pelo menos uma vez por ano que podemos esbanjar tanto. Ah, a grande entrada, um belo prato principal, um bom cabernet sauvignon e aquela sobremesa de fazer a boca salivar... fazem a conta bancária esvaziar quando a senha é digitada na máquina do cartão. E lá se vão mais uns R$200,00. Que tal um cineminha? Mais R$40,00 fácil. Um barzinho a meia-luz, com voz e violão? No mínimo R$50,00. E claro, finalizar a noite numa bela suíte de motel. Suíte, porque quarto vagabundo é para os dias comuns, hoje é dia dos namorados e, para valer mesmo a pena, tem que ter banheira com hidromassagem, piscina térmica e sauna, no mínimo. Quanto? Bem, já que essa é realmente a parte que interessa, R$350,00 pelo pernoite, está bem pago. E ainda tem o presente, que pode variar de R$100,00 a R$1000,00... ufa!!!

No dia seguinte, ela tem certeza de que tudo foi válido e o dia dos namorados foi perfeito, o olhar apaixonado, o sorriso no rosto, a certeza de que a escolha foi certa e o amor durará a vida inteira. Por outro lado, você, amigo, agradece fervorosamente a todas as divindades conhecidas e desconhecidas por ser apenas um o dia dos namorados, porque, caso contrário, poderia se chamar o dia dos endividados.

Bem, um feliz dia dos endivida... quer dizer, namorados para todos.


Alberto da Cruz

6 de junho de 2011

Sal, cal e alho

Foi apenas uma brincadeira, um trote para formatura, mas a homenagem foi belíssima. A nerdice contagiou o 3º ano do COSAF e arrancou gargalhadas em todas as salas. Hoje não me senti sozinho, hoje um bando de nerds esteve comigo, iguais temporários, semelhantes por instantes...


Aproveito o momento e parabenizo a turma pelas excelentes notas na avaliação de Literatura. Depois de Gregório, o Barroco ficou fácil... "Sal, cal e alho"

Alberto da Cruz

4 de junho de 2011

Reencontro

Depois de passar por maus bocados na Feira LIterária Raul Pompeia, tive o prazer de reencontrar Evanildo Bechara. Fazia 7 anos desde que nos encontramos pela última vez, num curso de Letras qualquer.
Hoje, a promessa, segundo o próprio benemérito, continua uma promessa, apesar de mais velha e madura do que antes.

Alberto da Cruz